A Morte

Uma extinção anunciada

Nenhuma criança que tenha nascido após o ano 2012 viveu um único dia sem sentir os efeitos das alterações climáticas. O relógio do clima está em contagem decrescente. Temos cerca de 7 anos para reverter a situação do planeta antes que a vida se torne insustentável.

Ana Catarina Braga, Ana Rita Galego, Carolina Charrua

O século XXI tem sido particularmente cruel. O aquecimento global está a provocar o degelo que faz com que o nível da água do mar aumente a uma velocidade alarmante e estima-se que cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo vão ser afetadas pela subida do nível do mar a partir de 2050. Outra problemática deste fenómeno é o aumento das secas, o que provoca um maior número de incêndios florestais. 

Todas estas consequências poderão contribuir para a destruição dos ecossistemas, o que pode levar à morte de plantas, de animais e, até mesmo, à extinção da nossa espécie.

Uma alimentação rica em poluentes

30% do consumo energético mundial e 22% dos gases que provocam o aquecimento global provêm da indústria alimentar, calcula a Organização das Nações Unidas (ONU). Esta indústria é também a maior causa da desflorestação e da perda de habitat de diversas espécies.

Segundo o relatório Planeta Vivo 2020 da World Wide Fund for Nature (WWF), o desperdício alimentar contribui também para as alterações climáticas, com uma responsabilidade estimada em “pelo menos 6% do total de gases com efeito de estufa”, três vezes mais do que as emissões globais da aviação. Ainda é mais chocante quando refletimos que 24% de todas as emissões do setor alimentar provém de alimentos perdidos nas cadeias de abastecimento ou são desperdiçados pelos consumidores e, por sua vez, os animais para o consumo humano representam quase 20% das emissões dos gases do efeito estufa.

Para manter as temperaturas globais em níveis normais para a manutenção da vida humana devemos reduzir em 90% o consumo de carnes nos próximos anos, caso contrário teremos que enfrentar um caos completo tanto no clima quanto na produção de alimentos.

Segundo a organização WWF, a produção de alimentos consome cerca de 34% do solo e 69% de toda a água disponível nos rios. Para se ter uma ideia, para cada 100 gramas de chocolate são necessários, aproximadamente, 1700 litros, o equivalente a 8 banhos de imersão.

Por fim, segundo a FAO, em 2050, é esperado que a população aumente para 9 mil milhões e, como tal, será necessário produzir mais 60% de alimentos, o que quer dizer que se não houver mudanças rapidamente, irá se instaurar o caos no ambiente e clima e nos recursos não renováveis.

Ameaça em terra e no mar

A agricultura é um dos setores mais afetados pelas alterações climáticas. Contudo, é também um dos setores que consegue ser mais prejudicial para o meio ambiente e para as espécies. Atualmente tanto a agricultura como a pecuária são sujeitas a meios mais industrializados e tecnológicos que acabam por pôr em risco os ecossistemas e quem habita nestes.

A elevada emissão de gases de efeito de estufa, a contaminação dos solos e a desflorestação são das principais consequências da agricultura intensiva. As máquinas que acabaram por substituir a mão de obra humana têm uma capacidade de produção muito maior, no entanto utilizam pesticidas prejudiciais tanto para a natureza quanto para os humanos. Para além deste tipo de agricultura ser um risco para os alimentos que consumimos é também um risco para a deterioração do solo do nosso território. Portugal é um dos países europeus com maior risco de desertificação e o plano de combate a este problema “não tem uma verdadeira natureza de programa ou de plano de ação” segundo o Tribunal de Contas, pois o nosso país não tem “recursos humanos e financeiros” para levar a cabo as medidas da União Europeia.

Figura 1 Gases com efeito de estufa produzidos pela agricultura Fonte: Agência Europeia do Ambiente

Relativamente à pecuária intensiva, esta representa uma grande ameaça às espécies e também à saúde dos humanos, sendo os animais de gado o maior exemplo disto. A forma como os animais vivem – muitas vezes enclausurados juntamente com dezenas de animais em espaços pequenos – e o tipo de alimentação que lhes é fornecida acaba por ser prejudicial para a saúde destes animais.

O aquecimento global também afeta bastante os oceanos e mares de todo o mundo. O aumento da temperatura das águas prejudicou várias espécies de peixes: com a diminuição do zooplâncton, alimento essencial para os peixes, as espécies ficam em risco. Estima-se que as pescarias fundamentais já reduziram cerca de 3% desde 1930, segundo o website do National Geographic. Por outro lado, algumas espécies de peixes devido ao aumento da temperatura das águas reproduzem-se mais, o que cria outro grande problema.

A competitividade entre nações no setor piscatório leva à questão da pesca intensiva. Ao longo dos anos o consumo de peixe foi aumentando até que em 2016 foi confirmado que cerca de 171 milhões de toneladas de peixe foi retirada do mar. A falta de controlo efetivo das malhas das redes leva a que os peixes ainda longe da fase adulta sejam capturados, o que leva ao risco de extinção das espécies. É necessário uma melhor gestão dos recursos antes que estas simplesmente desapareçam.

A agricultura biológica e a pecuária extensiva são talvez as melhores soluções possíveis para estas questões de risco. Na União Europeia a agricultura biológica já é vista como uma solução a longo prazo e que deve ser implementada em todos os Estados-Membros.

A indústria que se veste de negro

Entusiasmados por preços cada vez mais baixos e pela rapidez com que a moda chega – fast fashion – compramos agora mais roupa e usamo-la cada vez menos, o que tornou o vestuário em algo descartável. É de realçar que o número de coleções aumentou de duas por ano – Primavera/Verão e Outono/Inverno – para 50 a 100 mini coleções por ano.

Em Portugal, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente, os portugueses deitam para o lixo 200 mil toneladas de roupa todos os anos, e, em 2016, a Humana (associação sem fins

lucrativos, que promove a reutilização têxtil) apenas recolheu 4500 toneladas para reutilização ou reciclagem.

A indústria têxtil é considerada uma das mais poluentes, desde a produção, fabrico, transporte e uso (lavar, secar e engomar), contribuindo para cerca de 10% dos gases de estufa emitidos anualmente – igual à soma das emissões de CO2 provocadas pelos voos internacionais e viagens de transporte marítimo. 

Nos dias que correm, a produção global de vestuário concentra-se principalmente na Ásia, continente que depende de carvão e gás natural para gerar eletricidade e calor, o que impulsiona a emissão de gases de estufa nas etapas mais poluentes: produção e preparação de fibra, tingimento e acabamento da mesma.

Segundo o documentário True Cost, “mais de 90% do algodão utilizado é agora geneticamente modificado, usando grandes quantidades de água como também de químicos”, o que provoca a contaminação e infertilidade dos solos, podendo pôr em causa a saúde dos produtores e mesmo das pessoas que vestem a roupa.

O poliéster, quando feito a partir de combustíveis fósseis, não é biodegradável e tem elevada contribuição nas emissões de CO2. Por exemplo, a produção de poliéster em 2015 libertou 706 mil milhões de quilogramas de gases de efeito de estufa, o equivalente a 185 fábricas a carvão. 

Nas etapas de tingimento e secagem são utilizados 93 mil milhões de metros cúbicos de água por ano. Frequentemente, as sobras do processo de tingimento são despejadas em lagos e rios, deixando estas águas contaminadas com químicos tóxicos prejudiciais para a saúde dos seres vivos. Um exemplo é o rio Citarum. Créditos da imagem: Visão 

No entanto, existem fibras de poliéster totalmente recicláveis e que têm uma pegada hídrica inferior. A esta nova fibra, que deve ser adotada pelas indústrias, junta-se a alternativa do algodão orgânico – ao contrário do algodão comum utiliza pesticidas de ingredientes naturais e água da chuva -, que reduz a contaminação dos solos ao evitar produtos químicos. Para a moda se tornar mais sustentável, aconselha-se a técnica do upcycling, que consiste em dar um novo e melhor propósito a um produto que seria descartado sem degradar a qualidade e composição do material. Esta prática reduz a quantidade de resíduos produzidos que passariam anos em aterros sanitários.

Os pequenos seres que sustentam o planeta

No país em que vivemos existem alguns milhares de espécies de polinizadores. A sua tarefa é simples: transferem o pólen dos órgãos masculinos para os órgãos femininos das flores, permitindo a fertilização e a reprodução das plantas; mas poucos sabem o colapso que a falta destes pequenos seres pode originar nos ecossistemas e na vida do ser humano em particular.

José Alberto Quartau, entomólogo, afirma, em entrevista para o Jornal i, que “todas as plantas dos pomares com fruta precisam de polinização e são as abelhas que a fazem, a par de outros insetos”. Os polinizadores são essenciais na produção de grande parte das frutas, vegetais, sementes e óleos ricos em nutrientes que comemos, aumentando a quantidade e qualidade dos alimentos e garantindo o nosso abastecimento e segurança alimentar. A diversidade de alimentos disponível é, em grande parte, devida a estes animais: segundo dados do Parlamento Europeu, 76% da produção alimentar europeia depende da polinização. No entanto, a sua situação é um ponto merecedor de atenção – só na Europa, cerca de um terço das populações de abelhas e borboletas estão a desaparecer.

Fonte: Comissão Europeia, European Red List, Organização das Nações Unidas

As práticas agrícolas foram alvo de transformações, o uso de agentes tóxicos aumentou, assim como as perdas de habitat e ataques de espécies invasoras – como é o caso da vespa asiática. Estes são alguns dos fatores que têm contribuído para o colapso de muitas colónias de abelhas. 

O impacto que os pesticidas têm particularmente nos polinizadores resulta da toxicidade das substâncias ativas e do seu nível de exposição a estes químicos. Os eurodeputados afirmam que a redução do uso de pesticidas deve tornar-se numa prioridade na Política Agrícola Comum (PAC) num futuro próximo. Em abril de 2018, a UE acordou uma restrição do uso destes químicos ao ar livre, incluindo três pesticidas neonicotinóides – inseticidas derivados da nicotina para proteger as plantas dos insetos – que representavam uma ameaça para as abelhas. 

Imagine a world without bees

Caso os polinizadores sejam extintos, o entomólogo afirma que “seis em sete plantas com flores sucumbirão”. Muitos dos alimentos que fazem parte da nossa alimentação diária – como é o caso da maçã, abóbora e feijão – poderão desaparecer dos nossos pratos, fazendo com que tenhamos uma alimentação mais desequilibrada e uma maior propensão a problemas de saúde, como desnutrição. Com a consequente escassez destes vegetais, também os animais que deles se alimentam serão fortemente afetados, o que terá impactos em toda a cadeia alimentar. José Alberto Quartau realça a importância destes seres ao estabelecer um paralelismo com as peças de um relógio mecânico: “se faltar um parafuso minúsculo no relógio, que ninguém vê, o relógio entra em anomalia e pode entrar em colapso. A mesma coisa acontece nos ecossistemas, com os insetos”.

Jardins Zoológicos: preservação ou exploração?

Estivemos à conversa com Sandra Duarte Cardoso, presidente da SOS Animal desde 2015, mestre em medicina veterinária, doutoranda em ciências veterinárias, e apresentadora de programas de televisão como o SOS Animal e o À Descoberta com, para perceber a sua opinião relativamente aos jardins zoológicos enquanto promotores da preservação (ou não) das espécies:

Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental

O projeto da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental – concebido pela Sociedade Portuguesa de Botânica e pela Associação Portuguesa de Ciência da Vegetação em parceria com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) – iniciou-se em outubro de 2016 e consiste na sinalização e monitorização de plantas ameaçadas de extinção. A avaliação desta lista incidiu em cerca de um quinto da flora vascular do território continental e os resultados são preocupantes: das 630 espécies avaliadas, 381 encontram-se ameaçadas, sendo que 84 destas estão criticamente em perigo de ser extintas. A acrescentar a este cenário, 19 espécies já foram consideradas extintas, duas destas a nível mundial.

É ainda referido nesta lista que nestes casos de “situação de declínio populacional incontrolável é preciso agir em modo de resgate, mas que um adequado planeamento de prioridades e ações, aliado a uma boa alocação de recursos, deverá permitir a salvaguarda dessas plantas, e assim contribuir para travar a perda de biodiversidade no planeta.”

Lista de ameaças que estão a contribuir para o declínio e a extinção de muitas espécies da nossa flora. Estas e outras ações humanas são responsáveis pela destruição irreversível ou intensa degradação de vastas áreas de habitats, dos quais muitas das plantas ameaçadas dependem. Fonte: Livro “Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental

As armas para combater os desafios climáticos do futuro

Já imaginou como seria viver num mundo onde nos alimentássemos com uma menor variedade de produtos, mais pobres do ponto de vista nutricional e sem a garantia da sua segurança? Onde os ecossistemas se encontrassem em perigo iminente graças à redução da biodiversidade?

Para evitar cenários como este, as sementes e a sua conservação desempenham um papel fulcral no salvaguardar da biodiversidade de espécies que nos servem de alimento.

Em Svalbard, na Noruega, localiza-se um banco de sementes, totalmente subterrâneo, onde é armazenado mais de um milhão de sementes de variedades de espécies alimentares. As câmaras de refrigeração conservam as sementes a -18ºC e apenas podem ser abertas quatro vezes por ano. Como a estrutura se encontra submersa por gelo e neve, mesmo que exista alguma falha no sistema de refrigeração, o permafrost pode manter a viabilidade das sementes, mantendo a sua temperatura entre -4ºC e -6ºC. 

Fonte: New Scientist

Inside Earth’s Doomsday Seed Vault

Cada país pode enviar as suas próprias sementes, podendo proceder à sua recolha caso os bancos de sementes no seu território tenham sido destruídos.

Exemplo disso foi a guerra civil na Síria que obrigou, pela primeira vez, a abertura do cofre do Ártico. Com a destruição e ocupação do Instituto Aleppo, um banco genético que existia perto da cidade síria de Aleppo, um grupo de investigadores no Médio Oriente viu-se obrigado a pedir cerca de 130 caixas das 235 que foram depositadas no cofre. Estas caixas de sementes incluíam amostras de trigo, cevada e gramíneas, espécies adaptadas ao cultivo em regiões secas. 

O Banco de Sementes de espécies autóctones

Por cá existem também sistemas de conservação ex situ – fora do local de origem – que se pautam pela proteção e conservação de recursos. No Banco de Sementes António Luís Belo Correia, o maior e mais antigo banco de sementes de espécies autóctones em Portugal Continental, o grande objetivo é conservar e proteger, a longo prazo, várias espécies de sementes que se encontram ameaçadas. Como nos conta Manuela Sim-Sim, curadora do banco, a coleção de 3700 amostras de sementes de mais de 1400 espécies e subespécies constitui “um seguro contra a extinção das plantas no seu habitat natural, disponibilizando sementes para a reabilitação de habitats e o repovoamento de espécies ou reforço das suas populações”. Nesta coleção está já representado mais de um terço da flora e cerca de 60% das espécies protegidas do território continental. Segundo Manuela Sim-Sim, curadora do Banco de Sementes António Luís Belo Correia, as espécies autóctones podem ser preservadas até cerca de 80 anos, desde que em condições restritas e com constantes monitorizações.

A curadora termina, afirmando que é necessário tomar posições e uma atitude relativamente à conservação ambiental: “o bom que tivermos a fazer, não é para nós, é para todos. O futuro do planeta está nas nossas mãos”.

O Banco de Sementes de espécies cultivadas

A relevância da conservação ex situ da flora selvagem em Bancos de Germoplasma tem vindo a ser reconhecida face ao aumento verificado de espécies ameaçadas, parte das quais requer medidas imediatas de conservação. Os bancos de germoplasma podem constituir igualmente uma medida de conservação preventiva, funcionando como um seguro contra ameaças futuras, situação particularmente importante em espécies com populações pequenas ou localizadas, que apresentam maior probabilidade de extinção face a fenómenos improváveis.

O Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV) é hoje uma das maiores estruturas de conservação de recursos genéticos vegetais do mundo. Este banco conta com mais de 10.000 acessos, feito que é apenas alcançado por 10% dos bancos de germoplasma do mundo. Segundo a curadora, Ana Maria Barata, tem “um acervo conservado de 44 752 acessos, de 255 espécies e 143 géneros de plantas cultivadas, silvestres e de parentes silvestres das plantas cultivadas, conservados sob a forma de semente e de propagação vegetativa, resultantes de 128 missões de colheita de germoplasma nacionais e internacionais.”

Gráfico que representa o acervo conservado do Banco Português de Germoplasma Vegetal gentilmente cedido por Ana Maria Barata, curadora do banco

Este banco mantém uma colaboração com o “cofre” mundial, na Noruega, com “o objetivo e a responsabilidade de enviar duplicados de sementes do acervo conservado em Portugal”, conta Ana Maria Barata.

   Fonte: Expresso

Embora as espécies alimentares e agrícolas não estejam a desaparecer, o que é certo é que existe um problema sério: “há uma alteração das variedades em produção, a que se chama erosão genética, e a sua principal causa é a substituição de variedades locais por variedades comerciais, híbridas ou exóticas, nos campos dos agricultores”, afirma a curadora. 

Para evitar as consequências que fenómenos como este possam vir a ter nas nossas vidas, torna-se fundamental “a conservação da diversidade das principais culturas, para que se possa garantir o futuro da agricultura, que enfrenta grandes desafios, como a necessidade de alimentar uma população mundial em crescimento e as alterações climáticas.”

Ana Maria Barata conclui, reforçando a ideia de que a preservação de uma coleção diversificada de genes de plantas é necessária para estarmos preparados para os desafios climáticos do futuro. Afinal de contas, “se tudo morrer, o Homem também morre”.  

O que (não) está a ser feito

“A União Europeia deve comprometer-se a atingir emissões líquidas nulas de gases com efeito de estufa até 2050”: este foi o apelo feito pelo Parlamento Europeu, em novembro de 2019, na mesma altura em que também declarou emergência climática.

Depois deste pedido do Parlamento Europeu, em dezembro do mesmo ano, a Comissão Europeia apresentou o Pacto Ecológico Europeu, The European Green Deal. Este tem por objetivo melhorar o bem-estar das pessoas ao tornar a Europa climaticamente neutra e ao proteger o nosso habitat natural, beneficiando as pessoas, o planeta e a economia. Este “Green Deal” está assente em dez pilares

Fonte: Comissão Europeia

Em dezembro de 2020, tendo em conta a necessidade de aumentar a ambição política e colocar a União Europeia na linha da frente para combater as alterações climáticas, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, anuncia o plano climático para 2030.

Segundo um artigo da organização ambientalista Zero, este Pacto Ecológico está “ainda longe de enfrentar adequadamente os desafios impostos pelas alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição”. No entanto, prometem ser políticas transformadoras para o futuro e constituem um primeiro passo relevante da nova Comissão.

Uma das medidas propostas é a redução de pelo menos 55% das emissões de gases de efeito de estufa até 2030 – uma medida que embora à primeira vista seja ambiciosa, segundo a Zero, fica aquém do que seria desejável, ou seja, dos 65%, dada a emergência climática. 

Considerando que em 10 anos, de 2008 a 2018, a redução da União Europeia foi de 23%, supõe-se que este número possa ser ultrapassado num mesmo período de tempo. Contudo, as medidas apresentadas para chegar aos 55% inspiram o contrário – não existem soluções que tornem esta meta realista e que suportem a contenção do aumento de temperatura em 1,5ºC.

A neutralidade carbónica em 2050, que se diz ser conseguida com a ajuda de indústrias energeticamente intensivas que irão desenvolver e implantar tecnologias inovadoras com impacto neutro no clima, é tida como outra das medidas, embora fiquem por saber quais são esses instrumentos de captura de carbono. O que também é ignorado neste plano são os projetos de construção do aeroporto do Montijo e as emissões provenientes da circulação de pesados – transporte de mercadorias ou de pessoas – na União Europeia. Segundo a Zero, “a revisão dos padrões de CO2 é fundamental para que os camiões possam alcançar emissões zero” e para reduzi-las na logística urbana. Atualmente, o projeto da construção do aeroporto do Montijo foi chumbado e foi iniciado um novo estudo de impacto ambiental.

Para além destas duas medidas, Ursula von der Leyen afirma que “a transição para uma economia neutra do ponto de vista climático não deve deixar ninguém para trás”. Contudo, a concentração de indústrias extrativas e da correspondente produção de energia, bem como as indústrias com utilização intensiva de carbono, constituem um problema significativo para os territórios que dependem fortemente destas atividades. De forma a que estes territórios possam reestruturar-se e diversificar a sua economia, a Comissão criou o Fundo para uma Transição Justa – o acordo final entre o Parlamento Europeu e o Conselho foi aprovado em dezembro de 2020.

Caixa 1 – Flora Vascular

Conjunto de plantas que possuem vasos especializados (semelhantes aos vasos sanguíneos) para o transporte de seiva, que alimenta as células das plantas.

Caixa 2 – Banco de espécies autóctones

O banco de sementes de espécies autóctones tem como objetivo preservar as sementes naturais de cada território, armazenando sementes sob ameaça de extinção, seja por fatores naturais ou humanos.

Caixa 3 – Banco de Germoplasma

Os Bancos de Germoplasma são estruturas de conservação da diversidade genética vegetal, constituído por coleções com diferentes estatutos e com potencialidade de utilização imediata e futura.