A Morte

Militantes da Memória

A memória recorda-nos do passado. Nós recordamo-la no presente. Entranha-se nos mais peculiares objetos, levando-nos a embarcar numa viagem no tempo. A memória junta fragmentos da nossa história, coletiva ou individual, que não queremos deixar morrer. Entendemo-la como uma vida que, apesar de temporalmente distante, é fecundada por pessoas que a querem fazer lembrar eternamente. Recordações que ficam e que deixam o passado viver no presente.

Inês Rosa, Manuel Rocha Leite, Carolina Sobral

(Poema de Canção Sobre Esperança, II – Álvaro de Campos)

A constante evolução da sociedade conjugada com o rápido desenvolvimento tecnológico obrigou a que as antiguidades e velharias lutassem pela sua sobrevivência. Desde fotografias a grandes coleções de documentos históricos; desde motas clássicas a objetos com mais de trezentos anos: todos estes carregam uma grande carga emocional que não deve ser desvalorizada.

“Quem controla o passado, controla o futuro, Quem controla o presente, controla o passado.” – 1984, George Orwell

Uma forma de lutar contra o esquecimento e contra a morte das coisas, é salvar, salvar, salvar tudo o que faça parte da nossa memória coletiva. José Pacheco Pereira, professor e investigador da história contemporânea portuguesa, desde cedo que coleciona tudo aquilo que tenha valor histórico, sem deitar nada fora. Influenciado pelo pai e pelo avô, o historiador apenas decidiu dar continuidade ao projeto da família – O meu pai, o meu avô e o meu bisavô eram bibliógrafos, gostavam e colecionavam livros. Comecei a viver, praticamente, dentro de uma biblioteca

Antes da Revolução do 25 de abril, Pacheco Pereira recolhia documentos proibidos, livros censurados ou papéis que não podiam ser publicados de forma a preservar histórias e memórias em risco de serem esquecidas: até os enterrei, protegidos por plástico! Em 2003, decide criar a Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira, situada na Vila da Marmeleira, distrito de Santarém, com o intuito de não se excluir nada do que fizesse parte da história portuguesa. No ano de 2009, assume o nome de Ephemera e, atualmente, podemos encontrar grande parte da coletânea na zona industrial do Barreiro, distrito de Setúbal.

Porquê o nome EphemeraO nome é um bocado irónico e tem um certo sentido filosófico. Criamos aqui o mito de que é possível, sabendo tudo, coligindo tudo, recolhendo tudo, impedir a morte das coisas. Nós temos muita coisa morta aqui, mas o facto de estar aqui significa que está menos morta, explica-nos o historiador. Tanto o próprio José Pacheco Pereira, como todos os voluntários, que dedicam o seu tempo e esforço ao Arquivo, estão a lutar contra a efemeridade dos objetos, dos documentos, das coisas em si: Nós somos uma espécie de militantes da memória que combatem a efemeridade, sabendo muito bem a força das coisas efémeras

O Arquivo Ephemera [https://ephemerajpp.com/] contém mais de 200.000 títulos de livros, dezenas de milhares de brochuras, posters, imagens, panfletos, emblemas, pins, autocolantes, cartazes de manifestações e de protesto, conjuntos de espólios e as longas estantes percorrem mais de seis quilómetros. O principal papel deste Arquivo está assente numa pedagogia da memória, pois todos os dias desaparecem milhares de fragmentos da nossa memória coletiva. 

Quando questionado sobre a peça mais antiga que integra o seu armazém, fala-nos de um tratado de anatomia de cavalos ou de alguns livros editados em Veneza, indicando-nos a sua raridade. Mas as mais recentes, vão chegando dia após dia, como panfletos de partidos políticos: Estamos continuamente a receber coisas novas. O Ephemera, para além de ser um dos maiores arquivos privados em Portugal e na Europa, é também o que possui a maior coleção de cartazes espontâneos – artefactos gráficos produzidos no contexto de ações de protesto [https://esad.pt/pt/news/o-que-faz-falta-e-agitar-a-malta-cartazes-do-arquivo-ephemera] – recolhidos das mais diversas manifestações.

O importante é salvar a história e garantir a sobrevivência da memória. Depois de se salvar, há que conservar, organizar, inventariar, investigar e, por último, disponibilizar ao público. A história contemporânea portuguesa, relativa ao século XX, é o grande foco de toda a Biblioteca/Arquivo – Não é possível fazer a história contemporânea portuguesa sem vir aqui. Temos cadernos de estudo escritos por presos políticos; temos copiógrafos; temos correspondência de personalidades importantes da oposição, como Humberto Delgado; temos cartas de Salazar e muita documentação colonial

Já no fim da conversa, José Pacheco Pereira explicou-nos o que para ele é a memória. É o que aconteceu há um minuto!, afirmou entre risos. A memória é a lembrança, a recordação, uma obra histórica que, situada no presente (…), recorre ao passado para olhar o futuro [Infopédia]. O colecionador e investigador define a memória como a história do passado e cita um romancista inglês, Leslie Poles Hartley, – «O passado é um país estrangeiro, lá fazem-se as coisas de forma diferente» e nós aqui tentamos reconstituir essa forma diferente. 

Ephemera e toda a sua equipa fazem o apelo para que não se deite nada fora porque todas as coisas têm informação preciosa. Há sempre algo de único em tudo aquilo que ali se recebe.

«Na Feira da Ladra vive-se no passado ou, pelo menos, tenta-se conservá-lo»

Ainda nem o galo cantou e os vendedores já estão a preparar mais um dia na Feira da Ladra: a feira popular lisboeta com mais de setecentos anos. Desde móveis a livros, desde fotografias a garrafas: às terças-feiras e sábados antiguidades veem-se e vendem-se no Mercado de Santa Clara – uma boa viagem ao passado.

Das primeiras bancas, vindo do Arco Grande de Cima, encontra-se José Santos – vendedor na Feira há vinte anos. Traz consigo uma enorme coleção de máquinas fotográficas dos mais variados tipos e décadas. O seu gosto pela fotografia é grande desde jovem e quis trazer essa paixão à vida de muitas pessoas que por aqui passam, dando a conhecer máquinas vintage – todas elas em perfeito estado de uso. Inicialmente, era com o que tinha em casa, mas, já tendo vendido milhares de máquinas, começou a ir comprando e vendendo para continuar o negócio. É importante preservar a memória, acredita, e constata que “os mais jovens” têm vindo cada vez mais à procura destes objetos. Temos jovem e velho. Muitas meninas vão para máquinas vintage. Os mais velhos compram máquinas melhores. José Santos, apesar de já não usufruir tanto das máquinas e da arte de fotografar, tem como objetivo manter estes objetos “vivos” de geração em geração, pois a memória é o que antecede o presente e o futuro e, com o vintage a “voltar à vida”, há que se fazer chegar aos jovens que virão. 

Anda-se mais uns passos e encontra-se uma das bancas com mais identidade da feira pertencente a um senhor estrangeiro que preferiu não se identificar: chamo-me como tu quiseres, justifica. Entre bilhetes de identidade, cartas, passagens de avião, banda-desenhada e muitos outros tipos de documentos está um vendedor que pouco lucra, mas que muito gosta do que faz. Tem ao dispor o mais variado tipo de “coisas”: desde o que foi encontrando na rua, ao que foi descobrindo ao longo dos anos, tais como jornais portugueses das décadas de vinte e trinta. Acha muito importante vender estes documentos uma vez que quer fazer chegar às pessoas o seu gosto por história, que confessa vir já do ensino secundário. Não vendo, mas gosto de mostrar e assim o faz há mais de cinco anos. Os jovens só querem telemóveis e quando passam pela banca até colocam algumas questões, no entanto, apenas existe curiosidade, – o que acha bom, pois está a conservar o passado. Ainda assim, quer fazer lembrar estas memórias às novas gerações.

Apesar de ser, essencialmente, uma feira de rua, esticando um bocadinho mais as pernas, chega-se a uma loja de antiguidades de Jaime Gouveia, proprietário do seu negócio há cerca de dez anos. Adora aquilo que faz, mas reconhece que é um negócio muito dependente do dinheiro extra que as consumidores têm. Vende, principalmente, cerâmicas muito antigas: desde peças com mais de trezentos anos a objetos das últimas décadas. Não são as coisas mais antigas que valem mais. É uma questão de modas. No entanto, apesar de ter uma vontade imensa de passar a mensagem de que o passado tem de viver no futuro aos jovens e estes terem algum interesse, lamenta o facto de esse interesse por parte dos mais novos ser menor. Defende que as está a passar ao lado e que estas pensam que a vida é só viagens. Gastam dinheiro em coisas efémeras que passam e só deixam lembranças. Constata que os jovens pensam que as antiguidades são muito caras e que optam por decorações minimalistas o que acaba por impedir a continuação da preservação da memória. Este negócio só é bom em tempos em que há prosperidade e, se não há, não há negócio. Jaime Gouveia lamenta que depende muito do cliente internacional porque o português pouco compra e, num momento em que não há turismo, tem sido difícil levar a memória das peças que vende às pessoas. Apela para que os jovens guardem algum dinheiro e comprem estas coisas para nos mantermos vivos.

Avançando para o outro lado da feira, passando pelo Panteão Nacional, encontra Ana Cristina Silva – vendedora mais recente na feira, mas que gosta bastante da sua atividade. Nesta banca, vende objetos que cada vez mais os jovens querem comprar. Muitas vezes pelo impulso emotivo, ou porque o avô tinha ou por um conjunto de fatores atrativos. Confessa que muitas vezes até lhe custa a vender porque acaba por ser refém do seu próprio negócio. Porque vimos, temos a mesma sensação e compramos e queremos que o consumidor tenha o mesmo contacto com a peça. No entanto, por vezes, acaba por custar. Ana Cristina Silva tenta ser inovadora dentro do passado, transformando objetos que antigamente tinham um determinado uso e que, porventura, poderão vir a ter outro. Assim consegue atribuir uma nova vida a peças antigas que poderão estar a morrer. Dá o exemplo de caixas de azulejos – objetos muito raros de se encontrarem – que se tornam em peças decorativas e úteis para algum tipo de arrumação. Entre garrafas de bebidas antigas a ferramentas do passado e relógios de bolso: são tudo peças que os jovens têm vindo a procurar e que pretende fazer chegar a todos de modo a preservar a memória e a conseguir ser inovadora na antiguidade.

Entre muitas outras bancas, na Feira da Ladra vive-se no passado ou, pelo menos, tenta-se conservá-lo. É através da força de todos os vendedores que o futuro vai ganhando forma com toques antigos, mantendo o passado presente.

“O passado de agora era o meu presente na altura” 

Desde sempre com um gosto especial por “coisas antigas”, Luís Sobral, de 52 anos, é um aficionado de motas clássicas. 

Nascido e criado na cidade de Lisboa, viu-se desde cedo inserido num meio humilde de uma baixa pombalina envelhecida. Todo este ambiente que o viu crescer promoveu a procura e o interesse por coisas antigas – tudo isso na altura fazia parte da minha escolha, daquilo que eu via. Aos 16 anos compra a sua primeira mota – uma mota velha – e a partir daí a sua paixão foi crescendo. Encontrou neste veículo a liberdade e a independência que um jovem nos anos 80 tanto procurava, e passou a olhar para as motas clássicas de uma forma bonita – Era uma mota que nós víamos sempre como uma coisa muito bela, muito avançada na época. E as motas clássicas depois têm características interessantes: primeiro porque se tem de andar devagar, aprecia-se mais o passeio, e desfrutavas, tinhas um prazer diferente de conduzir, há outro carisma. 

Após uma pausa no mundo dos clássicos, foi há cerca de 10 anos que Luís Sobral retomou a sua paixão. No entanto, encara agora o seu gosto por motas como um hobby. Compra, restaura e vende, internacionalmente, peças de clássicos e rege-se pelo tema “compro velharias e vendo antiguidades”. Quando questionado sobre a diferença entre os dois termos – velharias e antiguidades – Luís Sobral explica que é algo que depende da interpretação que cada pessoa dá à palavra. Normalmente entende-se por loja de antiguidades uma loja que tem objetos raros e peças únicas. Uma loja de velharias tem sucata, tem coisas velhas, no entanto também estão lá objetos raros só que não estão identificados, explica. 

Conjuga assim uma paixão com um meio de obter lucro – consigo ir rentabilizando o hobby, depois com esse dinheiro volto a investir em outras motas. Com a limpeza e os restauros que faz, ajuda também a impedir que, de certa forma, certas peças deixem de existir – quando começam a desaparecer um grande número das mesmas peças, as que ficam tornam-se muito mais raras e valiosas

Quando questionado sobre o que era para si a memória, Luís Sobral deu o exemplo de uma fotografia. Explicou como uma fotografia é uma memória que cria uma nostalgia daquilo que já se viveu. E assim como uma fotografia antiga, há peças e objetos que nos marcam sempre durante aquela época, puxam-nos sempre à memória daquele tempo.

Para Luís Sobral, todo o hobby e a paixão por clássicos é uma forma de manter presente o passado e de não deixar passar o sentimento que em tempos existiu. É de um modo apaixonado que fala sobre as motas clássicas e sobre a liberdade que sentia quando nos seus tempos de jovem andava nas mesmas. São estes objetos que carregam uma grande carga emocional e que deixam uma sensação importante que merece ser recordada – E isto agarra-nos porque foram os momentos em que nós vivemos naquele presente. Na altura era o presente. Voltar a ter essa sensação mais tarde, continuamos a ter um certo revivalismo e memórias… ficamos sempre agarrados a essas memórias. 

As antiguidades, ao passarem de geração em geração, vão ganhando novas vidas e, por vezes, novos significados, acabando por se transformarem ao longo do tempo. Uma memória é algo tão rico que pode ser igualmente pessoal e universal e é capaz de tornar o efémero em eterno.

Através das lembranças do passado podemos mudar o futuro e tornar o que nos foi herdado em novas velhas formas de ver o mundo.